Arquitetura Apple

Geografias da rede vs. geometrias da disjunção

Maria Yue Ma, Technoscapes. Make America Great Again (2018). Matéria eletiva "Building Silicon Valley", Universidade de Cornell, outono 18, professora: Lina Malfona.

No texto a continuação, publicado originalmente na PLOT 47, a arquiteta Lina Malfona, doutora em arquitetura, explora sistemas tecnológicos corporativos e multinacionais que atendem a um mercado global e desafiam, através de suas sedes, noções de espaço virtual e físico, de conexão e separação, de centralização e colonização.

Deleuze escreveu: “Na sociedade de controle a corporação substituiu a fábrica, e a corporação é um espírito, um gás”.[1]Esta afirmação descreve a natureza imaterial da noção de corporação, negando de certa maneira suas raízes arquitetônicas ao apresentá-la como uma entidade em perpétua “metaestabilidade”.[2]Mas se uma corporação é definida por meio de seus fluxos imateriais, também pode ser descrita pelas bases territoriais de seus laços, legíveis na própria sede da empresa. Hoje em dia, muito mais que no passado, a intensa rede de conexões online parece ter suas próprias zonas fortificadas: os campus de TI, os laboratórios de pesquisa e as sedes dos gigantes da internet aparecem como nós físicos de produção de tecnologias digitais e fomento da conectividade global, mas também como novos bastiões de controle e poder. Uma espécie de militarização torna estes centros em lugares inacessíveis e fortificados, o que, paradoxalmente, produz um modelo espacial que, em vez de conectar, separa. Entre as companhias multinacionais de tecnologia, a Apple é o exemplo fundamental de uma corporação que serve a um mercado global e que, ao mesmo tempo, desafia, por meio de sua sede central, as noções de espaço virtual e físico, de conexão e separação, de centralização e colonização.

O projeto unido à estratégia comercial: a liderança de Jobs

A partir do início da história da Apple, a ideia de uma máquina autônoma, perfeitamente montada e completa, foi um ponto fundamental para a companhia, que atualmente continua sendo reconhecida por seus dispositivos seguros: caixas fortificadas, protegidas dos ataques virtuais. De fato, a Apple é uma das poucas companhias de TI do mundo que parece confiar em sua própria autonomia como filosofia de trabalho, de gestão e de marketing, e é também a única companhia que se diferenciou por essa filosofia. Sob a liderança de Steve Jobs, a crença no atrativo universal das formas geométricas nuas e a fé na revolução do software, junto com um forte espírito empresarial, contribuíram para o sucesso da Apple Inc. A estratégia de Jobs consistiu em conceber produtos inovadores e atraentes, simplificando e condensando ao máximo os modelos de Mac.[3]Cada parte do processo tinha que ser cuidadosamente coreografada e concebida, incluindo a caixa, a embalagem, os cabos e outros acessórios. Em uma conversa de 1981, Jobs disse que a Macintosh deveria funcionar “como um Porsche”, evocando um hino futurista sobre o poder das máquinas.[4]Outro aspecto interessante da estratégia da Apple pode ser observado em suas campanhas gráficas e anúncios publicitários. Tomemos, por exemplo, o spot “Think Different” (1997), dirigido por Ridley Scott para a agência de Los Angeles TBWA/Chiat/Day, que oferecia um panorama de homens talentosos que mudaram a história da humanidade: Picasso, Frank Lloyd Wright, Martin Luther King Jr. e Paul Rand. Seguindo um modelo bem conhecido de aperfeiçoar, reverter ou revolucionar conceitos anteriores, a Apple homenageou a IBM ao modificar o slogan e a marca registrada “THINK”, utilizado pela primeira vez por Thomas J. Watson em 1911.[5]

Vendo as apresentações de Jobs de produtos Apple no início do ano 2000, é interessante observar com que frequência utiliza a palavra “arquitetura” ao se referir à estrutura interna de seus produtos revolucionários, situados em uma interseção entre tecnologia e design. Embora a Apple tenha criado um império de produtos autônomos e bem concebidos, também estendeu sua identidade e seu estilo a seus edifícios corporativos, que seguem os mesmos parâmetros da companhia: neste sentido, seus espaços também se convertem em produtos Apple. Parecem delinear um estilo peculiar – que podemos chamar Arquitetura Apple –, baseado em um sentido do projeto consciente de si mesmo, figuras geométricas minimalistas e uma aparente celebração da transparência, utilizadas como uma espécie de publicidade ou uma forma de propaganda.

Características da arquitetura Apple

Poderia parecer contraditório que na era da conexão global, que promete novos horizontes de democracia e liberdade, o símbolo da Apple seja uma figura exclusiva e auto referencial: o círculo. O círculo, que alude à segurança, à proteção e, finalmente, à autonomia, estende-se a todos os produtos, processadores ou edifícios da Apple. Quando a roda giratória se detém, o download está completo e o software, pronto para ser executado. O logotipo de configuração de um dispositivo Apple é uma engrenagem; para acessar a tela é necessário apertar o botão central, um círculo. O círculo é, além disso, a imagem do projeto para o campus de Apple em Cupertino, Califórnia: tanto do antigo campus, conhecido como “Infinite Loop”, projetado por Hellmuth, Obata & Kassabaum em 1993, como do novo, o Apple Park, projetado por Foster + Partners.

Foster & Partners, Apple Park, Cupertino, 2013. Fotografia Daniel L. Lu (usuario: dllu) [CC BY-SA 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0)]. Fuente Wikimedia Commons (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Aerial_view_of_Apple_Park_dllu.jpg).

Evidentemente, a metáfora do anfiteatro remete à arena global, que representa a troca de informação através de infraestruturas digitais. No entanto, esta figura tem também certas implicações políticas e econômicas. De fato, a corporação Apple encarna a ideia de um novo pragmatismo baseado na eficiência da luta contra a concorrência, no controle da informação na internet e na circulação desta através de infraestruturas de comunicação. Portanto, a geometria do círculo representa uma ideia universal de conectividade global, mas também o isolamento e uma centralização autossuficiente.

No dia 7 de junho de 2001, durante uma reunião com o conselho municipal da cidade de Cupertino, o fundador da Apple, Steve Jobs, apresentou pessoalmente o projeto do Campus 2 da Apple, destinado a abrigar vinte mil pessoas e concebido como uma espécie de nave estelar pousada no Silicon Valley. O edifício parece uma máquina hiperinovadora destinada a causar efeitos desestabilizadores no entorno, segundo as próprias palavras de Jobs.[6]Esta descrição identifica o edifício como um espaço heterotópico, como a nave descrita por Foucault; um espaço necessário, talvez conceitual, cheio de energia criativa e destinado à melhoria da realidade.[7]

Norman Foster, que projetou o campus com as iniciais contribuições de Jobs, parece concebê-lo como uma espécie de estufa de alta tecnologia em forma de anel, que inclui um hortus conclusus. Segundo Foster, o primeiro ponto de referência de Jobs foi a Universidade de Stanford, projetada por Frederick Law Olmsted em 1888. Stanford era tanto um modelo arquitetônico quanto urbano, concebido conforme a tradição do campus estadunidense como uma comunidade utópica, e inspirado na integração do trabalho e da vida no recinto monástico. Seu primeiro esboço de projeto revelava una modesta disposição circular de edifícios situados nas colinas ao sul do atual Quad (1886), mas a última proposta era uma composição mais formal, que propunha um projeto ambicioso organizado ao redor de dois eixos ortogonais (1888).[8]O mais notável nessa história é que o projeto é o laço entre o Quad interno e o Quad externo, um anel duplo de edifícios discretos, conectados mediante um complexo sistema de arcadas. De cima, esta interconexão de espaços faz com que o pátio central pareça um castelo, com volumosas paredes de pedra (os pavilhões do campus) e trilhas (os pátios enquadrados por pavilhões). De certo modo, o projeto tornou-se uma “arquitetura urbana”, algo que poderia ser considerado tanto como a caraterística mais importante da arquitetura de Stanford como a mais próxima à visão de Jobs: o círculo como expressão da totalidade, como os pátios quadrangulares interconectados do campus de Stanford.

Apple encarna a ideia de um novo pragmatismo baseado na eficiência da luta contra a concorrência, no controle da informação na internet e na circulação desta através de infraestruturas de comunicação. Portanto, a geometria do círculo representa uma ideia universal de conectividade global, mas também o isolamento e uma centralização autossuficiente.
Frederick Law Olmsted, The Leland Stanford Jr. University Plan, 1888 (publicado en David Schuyler, Gregory Kaliss, y Jeffrey Schlossberg [eds.], The Papers of Frederick Law Olmsted, Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2015, p. 394).

Após a ideia inicial de arborizar apenas as ladeiras ao sul da universidade, Leland Stanford expressou um desejo mais ambicioso: criar um bosque universitário e universal, um arboretumcomposto de diferentes espécies de plantas que rodeasse o campus. Como veremos, esta proposta foi substituída na iteração de Foster e Jobs por um jardim interno no centro do Apple Park. Neste caso, o bosque que rodeia a arquitetura foi substituído por um hortus conclusus, no qual poderiam ser transplantadas e protegidas uma série de espécies vegetais locais em um viveiro: um novo tipo de abadia na era digital.[9]

Podemos rastrear as origens deste espaço interior em dois campus corporativos estadunidenses: o dos laboratórios Bell Telephone em Holmdel, New Jersey (1962), projetado por Eero Saarinen e Associados, e o da sede central da Fundação Ford em Nova York (1963-68) de Kevin Roche, John Dienkeloo e Associados. Todo o espaço de trabalho dos laboratórios Bell foi acondicionado artificialmente: os corredores que bordeiam o muro cortina externo abrigam laboratórios e escritórios, igualmente como o anel no Apple Park. O ponto de comparação mais atraente se encontra nos primeiros croquis feitos por Saarinen, que podem ser vistos como um conjunto de estudos topológicos destinados a pesquisar a relação entre o interior e o exterior, e entre contiguidade e separação. Embora a proposta final tenha sido disposta ao redor de um átrio cruciforme, as primeiras maquetes estavam organizadas em torno a um espaço central aberto.[10] Mesmo que o projeto dos laboratórios Bell, tal como foi construído, tenha se desviado dos croquis iniciais, a proposta inicial de um átrio verde, equipado com plantas tropicais, parece evocado – anos mais tarde – no projeto do hortus conclususda Apple. A organização das áreas de estacionamento foi decisiva no projeto do edifício da Apple, pois contribuíram para definir a forma final do projeto, que é percebido como uma poderosa figura elíptica, e que de certo modo lembra a centralidade dos primeiros modelos de projeto. Saarinen construiu outro edifício fechado para um campus corporativo: a Cúpula de Design no Centro Técnico da General Motors em Warren, Michigan. O domo está estruturado segundo uma planta circular, na qual tanto os escritórios quanto as instalações estão localizadas em torno de um espaço central de exposição futurista, onde são provados os automóveis antes de sair da GM. Ao trabalhar para os pioneiros da obsolescência programada, como Bell, IBM e General Motors, Saarinen teve que mediar as aspirações de permanência da arquitetura com a data de vencimento incorporada dos dispositivos móveis. No entanto, embora afirmasse que seus edifícios corporativos pareciam produtos industriais exaltados, concebeu-os como qualquer coisa menos como um lar permanente para Bell, IBM e GM.[11]De fato, o Domo que projetou para IBM foi recentemente renovado, após sessenta anos, e continua sendo perfeito em sua função.

Kevin Roche, John Dinkeloo y associados, Sede central da Ford Foundation, New York, 1963–68. Fotografia Cc2723 [CC BY-SA 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0)]. Fuente Wikimedia Commons (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Interior-Ford_Foundation-01.jpg).
Podemos nos remeter à posição de Kenneth Frampton, que descreveu o exclusivo edifício da Fundação Ford como “uma casa de valores e boas intenções da Ivy League, dedicada à repartição de benefícios privados para o bem público, a escala hermética em um mundo irreal”.

A sede central da Fundação Ford desenvolve sua arquitetura corporativa ao redor de um pátio, alterando a tipologia padrão do piso técnico ao criar um jardim interno sem precedentes, disposto em torno de uma estufa artificial e controlado automaticamente. O objetivo, tal como Roche disse, foi articular “um sentido de identificação do indivíduo com os objetivos e intenções do grupo”.[12]Podemos nos remeter à posição de Kenneth Frampton, que descreveu o exclusivo edifício da Fundação Ford como “uma casa de valores e boas intenções da Ivy League, dedicada à repartição de benefícios privados para o bem público, a escala hermética em um mundo irreal”.[13]De maneira reveladora, a estufa hipertecnológica em forma de anel da Apple apresenta as mesmas características: parece hermético, sem escala e utópico. Está formado por blocos radiais para as instalações e organizado ao redor de oitenta compartimentos [pods] em cada um dos quatro níveis concebidos como espaços de trabalho abertos com assentos configuráveis; o restaurante é o único lugar que não se adapta dentro do esquema de compartimentos.

Em alguns aspectos, o anel da Apple pode ser comparado com outro edifício concebido por Norman Foster para a Universidade de Stanford: o Centro de Ciências Biológicas James H. Clark. Com o propósito de encarnar um espírito colaborativo de pesquisa interdisciplinar, o Centro Clark apresenta a mesma ideia de vazio central que o anel da Apple, sobre o qual se assomam todas as janelas do edifício.[14]Mais ainda, no centro de seu pátio circular aberto, abriga duas salas nas quais os cientistas podem se reunir, compartilhar e apresentar seus projetos. A primeira das salas está marcada por um círculo desenhado no solo; a segunda, assim como o teatro do Apple Park, é uma sala de reuniões localizada abaixo da primeira.

Existem muitas histórias vinculadas a tesouros enterrados ou ocultos em uma caixa e à magia do que contêm. O Museu do Tesouro da Catedral de São Lourenço, em Gênova, projetado por Franco Albini entre 1953 e 1956, é uma cova subterrânea que abriga uma coleção de joias e pratarias. Partindo da bilheteria e da livraria, localizadas na sacristia da Catedral de São Lourenço, um breve lance de escadas conduz o usuário da entrada às quatro salas do Museu. Em termos arquitetônicos, este edifício, composto por uma série de figuras circulares, lembra o teatro do Apple Park em Cupertino. Este último se trata de um cilindro que emerge do térreo como uma vitrine de vidro, que oferece uma réplica em miniatura do grande edifício central. A partir de fora, somente se observa uma pequena parte de todo o teatro, que se escondesob a terra: a vitrine de vidro é apenas um umbral, um preâmbulo no térreo que precede o sótão, onde o espetáculo é realizado. Também atua como uma espécie de vestíbulo de vidro preliminar, onde os visitantes podem se purificar antes de ingressar à “experiência Apple”.

Do panóptico à colonização

A figura do círculo pareceria encaixar no ethosde certos lugares de culto e de trabalho, precisamente porque expressa a necessidade de proteger a atividade específica realizada no interior a partir do exterior. No entanto, o círculo contém as atividades de forma exitosa e exclui de forma incisiva. Neste sentido, minha referência à Universidade de Stanford não é puramente instrumental, pois reflete a maior tradição do campus norte-americano como uma cidade fora (ou dentro) da cidade, como a Universidade de Virgínia em Charlottesville, projetada por Thomas Jefferson em 1817. Se o campus é uma espécie de cidade em miniatura, também é, em boa medida, uma parte independente da própria cidade. Desde já, o modelo do campus não pode ser percebido como um fragmento da cidade, na medida em que constitui uma cidade alternativa, um tanto introvertida, exclusiva e reconhecível.

Foster & Partners, Centro de Ciencias Biológicas James H. Clark, 2003. Fotografía Lina Malfona.

De maneira análoga às Salinas Reais de Chaux, de Claude Nicolas Ledoux (1773-75), representadas como uma nave espacial inserida na cidade, o anel da Apple Park desatende o território onde parece ter aterrissado temporalmente, apesar de suas profundas fundações. Ledoux costuma pôr seus projetos em contato abrupto com a paisagem: os cubos e as esferas que aparecem em L’Architecturesão claramente objetos cuja artificialidade alude a uma expressão purificada da natureza. No entanto, no léxico de Ledoux, a arquitetura dominava e contemplava o campo, seguindo o modelo do mirante, enquanto que o anel da Apple é um elemento cego de vigilância.

Foster & Partners, Apple Campus 2, Cupertino, 2013. Fuente Google Earth, © 2018.
Claude Nicolas Ledoux, Salina Real de Chaux, 1773–1775. Implantação general.

O projeto urbano não é o único ponto de contato entre Ledoux e os produtos da Apple. Um princípio abstrato de autonomia poderia ser considerado como um trait d’unionentre ambos, não só em relação à unidade de projeto, mas também ao tipo de trabalho realizado neste tipo de espaços. Em seu ensaio “Projeto Revolucionário”, Antoine Picon afirma que Ledoux propunha a racionalização da produção mediante uma espacialização rigorosa, e que “a ideia da vigilância, facilitada pela ênfase elíptica, jogou um papel crucial, pois o olhar do diretor se dirigia ao mesmo tempo às diferentes etapas da produção”.[15]Mas esta vigilância, escreve Picon, teria sido totalmente ineficaz se não tivesse existido consenso entre os trabalhadores e o diretor. Assim, se a elipse – ou, melhor, o círculo – é uma forma de vigilância, também poderia ser considerada como a forma do contrato social: “a fábrica e seus arredores eram o marco de uma representação social perfeitamente ajustada; a elipse e o círculo também faziam referência à noção de uma comunidade transparente”.[16]Jobs evocou a mesma transparência, afirmando que concebeu o campus como um anfiteatro que deveria ser um símbolo da sociabilidade.[17]Embora o Apple Park abrigue uma comunidade de produção de outra espécie – uma comunidade integrada por trabalhadores imateriais – compartilha algumas semelhanças com as Salinas Reais de Chaux.[18]Mas se o segundo projeto das Salinas – uma figura em forma de elipse – era morfologicamente semelhante ao anel da Apple, o primeiro – um edifício com forma de castelo – revela uma analogia tipológica mais profunda. Neste caso, todas as instalações da fábrica estavam dispostas em um corpo quadrangular, criando, de acordo com Antony Vidler, uma “forma tipográfica” que unificava todas as necessidades da comunidade dentro de um diagrama único, semelhante ao círculo da Apple.[19]

À semelhança do projeto de Ledoux, a estratégia da Apple está baseada na centralização como corolário da colonização. De fato, enquanto Ledoux concebia uma rede de residências e serviços que encarnavam a intenção de explorar sistematicamente o território circundante, a companhia Apple utiliza suas próprias lojas como “sentinelas” do gosto do consumidor, intercaladas dentro das intersecções do mercado global. As residências e oficinas prototípicas situadas no bosque de Chaux, na junção dos caminhos para pedestres concebidos por Ledoux, assemelham-se à noção de colonização que a Apple desenvolve na arquitetura de suas lojas. De fato, o objetivo das fabriquesde Ledoux não era apenas reafirmar o domínio da fábrica no campo, mas também reformar os hábitos dos “homens toscos” da região. Da mesma maneira, a Apple tenta fazer com que os consumidores adotem seu modo de pensar através de sua presença física na cidade e nos meios virtuais de persuasão visual e psicológica. (Consideremos a diretiva do slogan publicitário da Apple, “Think different”).

É possível, embora provocador, traçar uma comparação formal entre os pavilhões de Ledoux e as lojas da Apple. Ledoux projetou cada residência como um espaço comunitário, ao redor de uma área principal de dois andares, com aquecimento e um forno de cozinha no centro. O protótipo da loja da Apple, com o centro ocupado por mobiliário específico para a exibição de computadores, poderia ser considerado como um espaço análogo. Um destes elementos de mobiliário, o Genius Bar, parece uma adaptação do balcão doconciergede um hotel Four Seasons, que os funcionários da Apple – encarregados de provar e reinventar o conceito de loja comercial no século XXI – consideraram a melhor experiência ao cliente.[20] Na casa de Ledoux para o guarda-florestal – uma jaula aberta na qual as paredes são substituídas por colunas quadradas – nada obstrui a vista deste panóptico rural. Esta permeabilidade visual poderia ser relacionada à transparência total da loja da Apple. Entretanto, encontramos aqui uma espécie de controle oposto: o que conta na loja é a possibilidade de olhar para dentro.

Claude Nicolas Ledoux, Salina Real de Chaux, 1773–1775. Planta da primeira proposta rejeitada por Luis XV en 1775.

Em qualquer caso, embora pareça possível traçar uma analogia puramente comportamental entre as Salinas de Ledoux e o Apple Park de Foster, uma comparação estrutural é praticamente insustentável. No projeto de Foster, um círculo abstrato simplifica a tipologia do anfiteatro, uma referência que provavelmente alude ao teatro onde Jobs assistia a concertos em Oakland, em vez do arquétipo romano.[21]A entrada do edifício perdeu sua função arquitetônica, e permanece como um espaço de transição, delimitado finalmente pelos sistemas de vigilância. Não se desdobram dispositivos arquitetônicos nem existe contraste entre luz e sombra; por último, uma espécie de frieza sem tensão atravessa os corredores e penetra nos espaços de trabalho. Encontramo-nos em uma espécie de espaço mecanicista, um espaço no qual as estruturas arquitetônicas podem ser colocadas no solo sem levar em consideração o peso ou as medidas, no qual os edifícios podem ser igualmente transparentes em ambos os lados, no qual a arquitetura expressa o fluxo do dinheiro sem resistência e no qual a própria geometria pode ser operada como uma grife.

Cidade utópica ou jaula dourada?

 Evidentemente, o fato da Apple contar com 19.000 funcionários em sua nova sede de Cupertino, e 110.000 no restante do mundo, demonstra que o campus da era digital não é apenas a cidadela tecnológica da comunidade empresarial, concentrada em um único lugar, mas uma colagem de fragmentos dispostos ao longo de vários circuitos internacionais.[22]No entanto, com seu novo campus, a Apple enfatiza a necessidade da companhia de difundir sua presença na economia mundial através da certeza física de um monumento à arquitetura perdurável. A necessidade das culturas corporativas de contar com “monumentos supertecnológicos” (tal como Manfredo Tafuri descreveu este tipo de edifícios em 1970) parece seguir viva e, novamente, este enfoque demonstra que a localização física de uma empresa ainda transmite uma aparência de poder.[23]Por isto, o símbolo mais perdurável da Apple talvez já não seja a maçã de seus produtos, mas o círculo icônico de seu campus em Silicon Valley.[24]Até certo ponto, o Apple Park reverterá o que Reyner Banham denominou “Silicon Style”, aludindo à arquitetura informal ao estilo Google que caracteriza o circuito de trinta milhas do vale de Santa Clara, do sul de San Francisco até San José.[25]Agora que a nave espacial está aterrissando, a região vai sofrer a irrupção de algo diferente do que os hackers chamam “jogo sério”. Longe das predições desmaterializadas de Deleuze está surgindo um objeto, já não disposto segundo padrões informais, temporais e flexíveis, mas de acordo com espaços especializados, seguros e hierárquicos, com fluxos claros e controlados.

Maria Yue Ma, Technoscapes. Make America Great Again (2018). Matéria eletiva "Building Silicon Valley", Universidade de Cornell, outono 18, professora: Lina Malfona.

[1] Deleuze, Gilles. “Postscript on the Societies of Control”. Outubro, número59, inverno de 1992, pág. 4.

[2] Em eletrônica, a condição de “metaestabilidade” identifica as habilidades dos sistemas eletrônicos digitais para permanecer em equilíbrio precário durante um tempo ilimitado. Ver, Bovier, Anton; den Hollander, Frank. Metastability: A Potential-Theoretic Approach.Berlim: Springer, 2015.

[3] Rotenberg, Jonathan. “Personal Computing 1984: PC Pragmatists, Macintosh Visionaries and the Future of Portability,” Computer History Museum, 2 de novembro de 2016, http://www.computerhistory.org/atchm/personal-computing-1984/.

[4] Ver Price, David A. The Pixar Touch: The Making of a Company. Nova York:Alfred A. Knopf, 2008. págs. 83–85.

[5] Ver os anúncios “THINK”em An Empire Built on Punched Cards, Computer History Museum, http://www.computerhistory.org/revolution/punched-cards/2/12/98

[6] “Steve Jobs Presents to the Cupertino City Council,” YouTube,7 de junho de 2011, https://www.youtube.com/watch?v=gtuz5OmOh_M.

[7] Ver Foucault, Michel. “Of Other Spaces: Utopias and Heterotopias,” Architecture/Mouvement/Continuité, no. 5 (outubro de 1984): pág. 49.

[8] Ver Joncas, Richard; Neuman, David J. e Turner, Paul V. Stanford University. Nova York: Princeton Architectural Press, 1999, págs. 2-12.

[9] O jardim interno remete novamente às heterotopias foucaultianas: parece ser uma versão profana de um espaço sagrado, contínuo como um anel, porém desconectado do contexto, em um desapego espiritual, como condição para a autonomia intelectual, científica e artística. No terceiro princípio de seu ensaio “Dos espaços outros”, Foucault descreve o jardim como um lugar onde “toda a vegetação tinha que se repartir dentro deste espaço, como em uma espécie de microcosmos”. Ver, Foucault, Michel. Em “Dos espaços outros: o corpo utópico, heterotopias”, pág. 49.

[10] Ver Reinhold, Martin. The Organizational Complex. Architecture, Media, and Corporate Space. Cambridge, MA: The MIT Press, 2003. Págs. 193–197.

[11] Saarinen, Aline B. Eero Saarinen on His Work. New Haven e Londres: Yale University Press, 1962.

[12] Ver Scott, Felicity. Outlaw Territories, chapter I. Instruments of Enviromental Control. Cambridge, MA: The MIT Press, 2016. pág. 52.

[13] Frampton, Kenneth. “A House of Ivy League Values”. Architectural Design, julho de 1968. págs. 305-311.

[14] O Clark Center foi inaugurado em 2003 e projetado por Foster + Partners em colaboração com MBT Architecture.

[15] Picon, Antoine. French Architects and Engineers in the Age of Enlightenment. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1992. Págs. 280-281.

[16] Ibidem.

[17] Ver Isaacson, Walter. Steve Jobs. Nova York: Simon & Schuster, 2011. Considere-se também a presença do Shoreline Amphitheater na área de Silicon Valley, descrita por Reyner Banham. Ver Banham, Reyner. “La Fine Della Silicon Valley,” Casabella539, 1987: págs.42-43.

[18] Para uma definição de trabalhador imaterial, ver Lazzarato, Mauricio. Immaterial Labor, en Radical Thought in Italy: a Potential Politics, eds. Paolo Virno e Michael Hardt. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996. Págs. 132–141.

[19] Ver Vidler, Antony. The Scenes of the Street and Other Essays. Nova York: The Monacelli Press, 2011. Págs. 152–161.

[20] Estes experimentos foram realizados em um armazém alugado pela Apple, próximo ao campus em Cupertino, onde foi construído o primeiro protótipo em 2001. Ver O’Grady, Jason D. Apple Inc.: Corporations that Changed the World. Westport, CT: Greenwood, 2009. Págs. 53-54.

[21] Ver Isaacson, Walter. Steve Jobs. Nova York: Simon & Schuster, 2011. Págs. 368–376.

[22] Ver Downey, Rosie.“Technology Employers in Silicon Valley, Ranked by Local Employee Headcount” Silicon Valley Business Journal, 3 de junho de 2016.

[23] Tafuri, Manfredo y Dal Co, Francesco.Architettura Contemporanea. Milão: Electa Editrice, 1979. Pág. 103; Tafuri, Manfredo “Lavoro Intellettuale e Sviluppo Capitalistico,” Contropiano2, 1970. Págs. 241-281.

[24] Leve em consideração o impacto do romance distópico de Dave Eggers, TheCircle (San Francisco: McSweeney’s, 2013).

[25] Ver Banham, Reyner. “Silicon Style,” Architectural Review, número 169, maio de 1981. Págs. 283-290.

Lina Malfona é arquiteta, doutora em Desenho Arquitetônico e Urbano e professora do College of Architecture, Art and Planning da Universidade de Cornell. Em 2007, fundou o seu escritório de arquitetura, o Malfona Petrini Architetti, junto a Fabio e Simone Petrini, com quem construiu mais de dez moradias na zona rural romana.

As suas obras e escritos foram publicados em Il Poligrafo, Gangemi, Quodlibet, The Plan, The Avery Review, Architectural Record, Anfione e Zeto, Paesaggio Urbano, Rassegna di ArchitetturaeUrbanisticae Ananke.

É autora dos livros Tra Rome e il Mare(2014), Il Tracciato Urbano(2012) e Per una definizione del progetto(2010). Além disso, editou junto a Franco Purini o livro Antonio Sant’Elia. Manifesto dell’Architettura Futurista(2015).

Compartilhar

Open chat